O Portal Existe. As Câmaras Entram. Mas Não Agem.
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O Portal Existe. As Câmaras Entram. Mas Não Agem.

Queixate26 de setembro de 20267 min de leitura

TL;DR

  • O portal de gestão de queixas do Queixate está disponível desde 3 de Setembro de 2026. Permite às câmaras ver, responder e resolver queixas submetidas pelos cidadãos.
  • Duas câmaras — Castelo Branco e Póvoa de Varzim — fizeram login no portal. Somam 23 sessões entre 24 de Agosto e 20 de Setembro.
  • Nenhuma das duas tomou uma única ação sobre as queixas: não responderam, não resolveram, não comentaram.
  • Há 24 queixas registadas, das quais 21 foram submetidas às câmaras. Quatro foram resolvidas pelos próprios cidadãos que as criaram — uma forma de desistir sem resposta.
  • Portugal tem 308 municípios. Só 6 têm queixas na plataforma. Só 2 entraram no portal. Zero reagiram.

O que os números dizem

Descarregámos os dados do Queixate a 23 de Setembro de 2026, às 08h10, através da API pública da plataforma. A janela de análise cobre toda a existência do produto — desde o lançamento em Março de 2026 até agora.

O portal de gestão foi enviado a todas as 308 câmaras municipais no dia 3 de Setembro, por email, com credenciais de acesso, manual de utilização e um pedido de confirmação de receção. Três semanas depois, os números são estes:

  • 308 municípios convidados
  • 6 municípios com pelo menos uma queixa submetida por um cidadão
  • 2 municípios que fizeram login no portal (Castelo Branco e Póvoa de Varzim)
  • 0 ações tomadas por qualquer câmara sobre qualquer queixa

Castelo Branco

  • 14 sessões no portal de gestão
  • Primeiro login: 12 de Setembro de 2026
  • Último login: 20 de Setembro de 2026
  • Ações tomadas: 0

Castelo Branco: 14 sessões, 0 ações

Póvoa de Varzim

  • 9 sessões no portal de gestão
  • Primeiro login: 24 de Agosto de 2026 (antes do lançamento oficial — acesso beta)
  • Último login: 20 de Setembro de 2026
  • Ações tomadas: 0

Póvoa de Varzim: 9 sessões, 0 ações


O que é uma ação

Uma ação é qualquer intervenção da câmara sobre uma queixa através do portal:

  • Responder ao cidadão
  • Marcar a queixa como resolvida
  • Adicionar um comentário interno
  • Atribuir a queixa a um serviço ou técnico
  • Alterar o estado da queixa (em análise, em resolução, resolvida)

O portal de gestão foi desenhado para isto. As câmaras têm acesso completo. Veem as queixas, os detalhes, as fotografias, a localização. Podem responder em dois cliques. Não há barreira técnica. Não há custo. Não há período de teste.

E, no entanto, zero ações.


As queixas estão lá

Neste momento, há 24 queixas registadas na plataforma. Destas:

  • 21 foram submetidas às câmaras — chegaram à caixa de entrada do portal de gestão.
  • 5 estão fechadas. Quatro foram fechadas pelos próprios cidadãos que as criaram. Uma foi fechada automaticamente após resolução confirmada.
  • 16 continuam abertas, à espera de resposta.

Nenhuma teve resposta da câmara. Nem sequer um comentário interno que dissesse «vimos isto».


O fosso entre acesso e resposta

Castelo Branco fez login 14 vezes. Passou pelo portal, viu as ferramentas, teve acesso às queixas. E não fez nada. Póvoa de Varzim fez login 9 vezes. Teve acesso beta antes do lançamento oficial, teve três semanas para experimentar, teve tempo para testar. E não fez nada.

Não estamos a falar de municípios que não sabem que a ferramenta existe. Estamos a falar de municípios que entraram 23 vezes e saíram sem tocar em nada.

Há três explicações possíveis:

  1. As câmaras não perceberam como usar o portal — o que seria um problema de usabilidade ou de formação.
  2. As câmaras perceberam, mas decidiram não responder — o que seria um problema de vontade política.
  3. As câmaras viram, mas não têm processos internos para integrar o portal nos seus fluxos de trabalho — o que seria um problema de organização.

Os dados não dizem qual é. Mas dizem que o problema não é técnico. O portal está disponível, está funcional, e está a ser acedido. O fosso está entre o acesso e a ação.


Desistir sem resposta

Quatro queixas foram fechadas pelos cidadãos que as criaram. Isto significa que o autor da queixa voltou à plataforma e marcou a sua própria queixa como resolvida — apesar de não ter havido resposta da câmara.

A interpretação mais provável é desistência. O cidadão submeteu a queixa, esperou, não teve resposta, e desistiu. Fechou a queixa para a tirar da sua lista. O problema continua lá — o passeio partido, o candeeiro apagado, o buraco na estrada. Mas a queixa está fechada.

Isto é exactamente o oposto do que o portal foi desenhado para resolver. A plataforma existe para dar visibilidade às queixas e garantir que são vistas. Se o resultado for que o cidadão desiste porque não houve resposta, então a plataforma falhou. Não por falha técnica — a queixa chegou. Mas por falha de resposta.


308 municípios, 6 com queixas, 2 no portal, 0 ações

Este é o funil completo:

  • 308 municípios existem em Portugal.
  • 6 municípios têm pelo menos uma queixa submetida por um cidadão na plataforma.
  • 2 municípios fizeram login no portal de gestão.
  • 0 municípios tomaram uma ação.

O funil: 308 municípios, 6 com queixas, 2 no portal, 0 ações

A adopção é baixa. Isso era esperado — a plataforma tem seis meses de vida, o email de convite saiu há três semanas, e a mudança de processos não acontece de um dia para o outro. Mas o problema não é a adopção. O problema é o que acontece depois da adopção.

As câmaras que entraram não agiram. Isso não é falta de acesso. É falta de resposta.


O que isto significa para o cidadão

Se és cidadão e submeteste uma queixa através do Queixate, há uma hipótese crescente de que a tua câmara já tenha acesso ao portal. E há uma hipótese nula de que tenha respondido.

Isto não é uma falha do Queixate. A queixa chegou. Foi entregue. Está visível. A câmara pode vê-la. O que falta é a resposta.

A plataforma resolve o problema do acesso — garante que o cidadão consegue submeter a queixa e que a câmara a recebe. Mas não resolve o problema da vontade. Se a câmara não quiser responder, não responde. O portal não obriga. Só torna a inação visível.


O que vem a seguir

Estes dados são públicos. Qualquer pessoa pode descarregá-los através da API pública do Queixate. Qualquer jornalista, investigador, ou cidadão pode contar as queixas, ver quais as câmaras que têm queixas, e verificar quais responderam.

A transparência funciona nos dois sentidos. O cidadão fica a saber se a sua queixa foi vista. A câmara fica a saber que o cidadão pode verificar se houve resposta.

Por agora, os números mostram isto: o portal existe, as câmaras entram, mas não agem. Isso pode mudar. Mas só se as câmaras decidirem que vale a pena responder.

Os cidadãos já decidiram que vale a pena perguntar.


Metodologia

  • Fonte: API pública do Queixate (https://orch.queixate.pt)
  • Data de extração: 23 de Setembro de 2026, 08h10 UTC
  • Janela temporal: Março de 2026 a 23 de Setembro de 2026 (toda a existência da plataforma)
  • Métricas:
    • Total de queixas: GET /public/complaints (n=24)
    • Queixas submetidas às câmaras: filtro status != draft (n=21)
    • Câmaras com login: dados do portal de gestão, sessões não-impersonation (n=2)
    • Ações de câmara: eventos de resposta, comentário, alteração de estado (n=0)
  • Exclusões: Sessões de impersonation (testes internos), queixas dirigidas a freguesias, queixas resolvidas automaticamente pelo cidadão sem interação da câmara.
  • Ficheiro de análise: queixate_bff/tools/product-metrics.sh

Tem uma queixa sobre a tua câmara municipal? Submete em queixate.pt — anónimo, gratuito, sem registo. A tua câmara pode vê-la. Responder é escolha delas.

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